Comprimidos de Anfetaminas dentro de um prato, junto com um garfo e fita métrica

            Muitas pessoas, quando se dão conta de que precisam emagrecer, optam pelo uso de fármacos para que isso aconteça e acham que eles podem agir milagrosamente em suas vidas.

Abordei sobre este assunto no último artigo, ao qual falo sobre os principais remédios para perda de peso. Infelizmente, elas esquecem que precisam mudar seu estilo de vida, adotando uma dieta com reeducação alimentar e o hábito de realizar exercícios físicos diariamente, durante pelo menos 30 minutos.

Os medicamentos que contêm Anfetamina em sua composição só devem ser prescritos e utilizados em último caso, quando nenhum outro tipo de fármaco, juntamente com mudança dos hábitos, já foram utilizados.

Para que você compreenda melhor, vamos contar um pouco sobre a história das Anfetaminas.

História da Anfetamina

A Anfetamina é uma droga estimulante, muitas vezes adotada como substância emagrecedora, mas que apresenta sérios efeitos colaterais no organismo de quem abusa da mesma.

Ela foi sintetizada em laboratório pela primeira vez na Alemanha, em 1887, pelo químico Lazar Edeleanu.

Em meados de 1928, o Benzedrine – nome comercial dado à Anfetamina – passou a ser utilizada medicinalmente para aliviar tensões do Sistema Nervoso Central, emagrecer,  como descongestionante nasal, tratamento de Mal Parkinson, Narcolepsia (a pessoa fica constantemente com sono), depressão, entre outros.

Ela possuía diversas formas de uso, como inalação e pílulas, chegando a ter mais de 50 milhões de unidades vendidas no mercado mundial.

Entre meados de 1932 a 1946, a indústria farmacêutica desenvolveu mais de 39 usos clínicos para a Anfetamina.

Seu ápice foi na Segunda Guerra Mundial, onde muito soldados das tropas aliadas e das potências do Eixo a utilizavam para aumentar o estado de alerta.

Neste mesmo período, 500 mil trabalhadores japoneses faziam uso dessa droga, sob pretexto de ser a “solução para sonolência e desânimo”.

Nos EUA, seu uso só foi permitido para os militares após a Guerra da Coréia. Mais para a atualidade, ela foi bastante utilizada por caminhoneiros que precisavam ficar muitos dias acordados na estrada – o famoso “rebite” – e por pessoas que gostariam de emagrecer rapidamente, pois são inibidoras de apetite e aumentam o metabolismo.

O Brasil é o maior consumidor mundial de Anfetaminas, um dado que preocupa muito as autoridades de saúde pública.

Para cada 1.000 brasileiros, são consumidos cerca de nove comprimidos por dia, o que produz uma grande tolerância e altas taxas de dependência.

O que são Anfetaminas

            Vários indivíduos buscam tratamentos farmacológicos para a obesidade e um deles, é o uso controlado de Anfetaminas.

Elas são uma classe de medicamentos anorexígenos e agem diretamente na inibição do apetite.

Elas também são capazes de gerar quadros de euforia, provocar vigília, aumentar a atividade autônoma e a liberação de dois neurotransmissores importantes: noradrenalina e dopamina, inibindo suas recaptações.

Com isso, há a redução do sono, taquicardia, aumento da pressão sanguínea, dilatação das pupilas, aumento de atenção, diurese, aumento da atenção, sensibilidade aos estímulos, perda do apetite e aumento da agitação psicomotora, deixando seus usuários mais desinibidos, excitados e hiperativos.

Seu uso é indicado quando:

  • Há dificuldade de mudança de hábitos alimentares e físicos, associados a problemas crônicos, como por exemplo hipertensão e diabetes;
  • Obesidade mórbida, gerando um risco maior para os pacientes;
  • Pacientes com Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 30;
  • Paciente com IMC acima de 25, com associação de alguma doença crônica;
  • Tratamentos ineficazes com outros tipos de medicamentos, mesmo associando dietas e exercícios físicos;
  • Presença de hábitos alimentares patológicos, como bulimia e compulsões alimentares.

            Segundo BESSA e colaboradores (2012) o uso seguro de Anfetaminas deve ser feito entre oito a 12 semanas, em conjunto com uma dieta equilibrada e prática de exercícios físicos, senão de nada adianta.

Ela é um dos anorexígenos mais utilizados no mundo. Prova disso é um estudo dirigido por MARTINS e colaboradores (2011) com um grupo de universitários (664), que demonstrou uma alta frequência (6,8%) de consumo de substâncias antiobesidade, sendo que as Anfetaminas e Aminas Simpaticomiméticas foram as mais utilizadas por eles (40,5%), onde 62,2% eram do sexo feminino.

De todos os universitários, apenas 31,1% das prescrições de fármacos antiobesidade foram prescritos por médicos, mostrando que o uso desse tipo de droga está sendo preocupante, por sua elevada proporção sem indicação ou prescrição médica.

Marcas mais conhecidas

            As drogas anorexígenas tipo-Anfetaminas mais utilizadas no Brasil são: Dietilpropiona (Anfepramona), Femproporex e Mazindol.

Anfetaminas Emagrecem?

Comprimidos azuis e embalagem do remédio Anfetaminas

Quando a Anfetamina é utilizada clinicamente, ela pode auxiliar no tratamento da obesidade por um curto período de tempo (oito a doze semanas), caso associada à prática de exercícios físicos e uma dieta balanceada.

Segundo MANCINI e HALPERN (2002), o uso racional de medicamentos antiobesidade só funciona caso:

  1. Em conjunto com orientação dietética e prática de exercícios físicos;
  2. Quando descontinuado, há o ganho de peso, caso o paciente não mude seu estilo de vida;
  3. São utilizados sob orientação médica contínua;
  4. O paciente conta seu histórico, pois cada tratamento é moldado a partir disso;
  5. Mantidos até o momento que for seguro e efetivo para o paciente.

            GUY-GRAND e colaboradores (1989), em uma de suas pesquisas sobre obesidade, diz que os medicamentos devem demonstrar efeito positivo em reduzir o peso corporal e levar à melhora de doenças psicológicas (bulimia e compulsões alimentares), ter efeitos colaterais toleráveis, não ter propriedades de adição, apresentar eficácia e segurança mantidas até o final do seu tratamento, possuir mecanismo de ação conhecido e ter um custo razoável.

Mecanismo de ação

  • Anfepramona: segundo MOREIRA e ALVES (2015), sua ação é central, com o aumento de produção dos neurotransmissores Noradrenalina e Dopamina. Há uma estimulação dos núcleos hipotalâmicos laterais, inibindo assim a fome. Para GUEDES e colaboradores (2011), ela é a substância menos perigosa para pacientes que sofrem com hipertensão;
  • Femproporex: ainda segundo MOREIRA e ALVES (2015), este medicamento age estimulando o Sistema Nervoso Simpático, inibindo a enzima MAO (Monoamina Oxidase), cuja principal função é a degradação de monoaminas, como a Noradrenalina. Ela atua na neurotransmissão de Noradrenalina e Dopamina nas vesículas pré-sinápticas, induzindo suas liberações e inibindo suas recaptações;
  • Mazindol: por último e não menos importante, MOREIRA e ALVES (2015) aborda sobre este fármaco derivado da Imidazolina e age bloqueando a recaptação da Dopamina e Noradrenalina nas terminações nervosas – como os antidepressivos -, aumentando a captação de glicose pelo músculo esquelético, dando assim mais energia.

Riscos do uso de medicamentos a base de Anfetaminas

            No Brasil, houve um aumento de 500% no consumo de anorexígenos desde 1998, dado pesquisado e averiguado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

Se você parar para pensar, é fato que nosso país corre riscos muito grandes, principalmente quando os indivíduos conseguem receitas falsas e até mesmo encontrar esse tipo de medicamento em farmácias, não precisando de prescrição para adquiri-los.

O consumo elevado dos três tipos de drogas que citamos (Anfepramona, Femproporex e Mazindol) pode causar os seguintes riscos:

Anfepramona

Não pode ser consumido durante a gravidez e lactação, por pessoas com glaucoma, feocromocitoma, câncer de próstata, insuficiência renal e hepática, hipertensão grave, arritmias, hipertireoidismo, aterosclerose, por indivíduos que apresentam quadros de distúrbios psiquiátricos, epilépticos, alcoolismo crônico e que possuem algum tipo de sensibilidade a Anfepramona.

Seus principais efeitos adversos e efeitos colaterais são:

  • Insônia;
  • Cefaléia;
  • Agitações;
  • Possíveis alucinações;
  • Depressão;
  • Delírios e quadros psicóticos (em casos de uso exacerbado, podendo causar intoxicação aguda);
  • Nervosismo;
  • Náuseas;
  • Diarréias;
  • Taquicardia e arritmias;
  • Hipotensão;
  • Boca seca, entre outros.

            Seu uso prolongado pode levar a diminuição da concentração, bipolaridade e distúrbios psicóticos parecidos com os da esquizofrenia.

Femproporex

            Este é um medicamento contraindicado em casos e aterosclerose, distúrbios vasculares, hipertensão moderada a severa, glaucoma, hipertireoidismo, indivíduos que fazem abuso de drogas ilícitas e hipersensibilidade ao medicamento.

Caso algum diabético faça uso do mesmo, pode ter suas necessidades de insulina alteradas. Reações adversas e efeitos colaterais:

  • Insônia;
  • Ansiedade;
  • TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo);
  • Ansiedade;
  • Síndrome do Pânico;
  • Vertigem;
  • Fraqueza;
  • Dores de cabeça;
  • Tremores;
  • Calafrios;
  • Palidez;
  • Boca seca;
  • Náuseas;
  • Diarréia;
  • Gosto metálico na boca;
  • Câimbras abdominais;

            É esperado que o indivíduo sofra algum tipo de síndrome de abstinência, tolerância e dependência, caso utilize este medicamento por muito tempo e de modo descontrolado.

Seu uso não pode ser feito por pessoas que possuem problemas pulmonares e respiratórios.

Mazindol

            Seu uso é contraindicado a indivíduos que apresentam histórico abusivo de medicamentos, algum tipo de doença cardiovascular, glaucoma, quadros de agitação, gravidez, lactação e alergia ao Mazindol.

Caso haja pacientes com quadros de doenças hepáticas, cardíacas e diabetes mellitus tipo 2, pode haver a necessidade de ajuste de doses. Reações adversas e efeitos colaterais:

  • Insônia;
  • Boca seca;
  • Nervosismo;
  • Tontura;
  • Dores de cabeça;
  • Arrepios;
  • Náuseas;
  • Palpitações;
  • Fraqueza;
  • Vertigem;
  • Constipação e desconforto gástrico;
  • Sudorese.

            Caso haja o uso desenfreado do medicamento, o paciente poderá ter quadros de Hipertensão Arterial Pulmonar, podendo haver quadros de intoxicação ou sofrer algumas alterações no organismo, como o aumento da pressão arterial.

Dica: caso vocês não consigam visualizar os quadros de efeitos colaterais e abuso dos medicamentos a base de Anfetamina, indico assistir o filme Réquiem Para um Sonho, onde a atriz Ellen Burstyn (que interpreta a Sara Goldfarb, mãe do Harry Goldfarb – interpretado pelo Jared Leto) precisa emagrecer para caber em seu antigo vestido, pois participará de um programa de televisão que ela ama!

Conclusão

            A Anfetamina é um fármaco que há muito tempo é utilizado no processo de emagrecimento, sendo que sua eficácia é comprovada quando há uma mudança no estilo de vida, adotando uma dieta saudável e prática de exercícios físicos.

Infelizmente, como qualquer outro tipo de medicamento, possui efeitos colaterais e contraindicações, bem como um período curto de utilização da mesma.

O abuso de Anfetaminas pode levar a quadros depressivos, problemas respiratórios e cardíacos, sendo muito perigoso para o organismo. Espero que vocês tenham gostado do artigo. Até a próxima!

Fontes

  1. https://bdpi.usp.br/bitstream/handle/BDPI/43729/Anfetaminas
  2. https://www.fef.unicamp.br/fef/sites/uploads/deafa/qvaf/alimen_saudavel_cap12.pdf
  3. https://diretrizes.amb.org.br/_BibliotecaAntiga/abuso_e_dependencia_de_anfetaminicos.pdf
  4. https://lume.ufrgs.br/handle/10183/70117
  5. http://www.uniararas.br/revistacientifica/_documentos/art.9-029-2015.pdf
  6. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2669089/
  7. https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-311X2008000800005&script=sci_arttext&tlng=pt
  8. http://portal.anvisa.gov.br/documents/219201/2782895/Nota+t%C3%A9cnica+anorex%C3%ADgenos/16367d39-f947-40fe-a89f-65a51b465792

https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-42302011000500017