Nos últimos anos, houve uma crescente procura por alimentos saudáveis e com propriedades funcionais, ou seja, que desempenhem um papel ativo nos processos metabólicos do organismo para além de suas funções nutricionais primárias, especialmente no combate a doenças degenerativas – como câncer e diabetes – e nos casos de obesidade.1

Algumas das principais substâncias classificadas por suas propriedade funcionais são: isoflavonas – encontradas na soja e derivados, com propriedades anticancerígenas; ômega-3 – encontrado principalmente nos peixes, com propriedades anti-inflamatórias e de prevenção às doenças cardiovasculares; licopeno e flavonóides – encontrados nos legumes  e frutas vermelhos e roxos, com propriedades anticancerígenas e protetoras da saúde do coração; prebióticos e probióticos – encontrados na chicória, batata yacon, leites fermentado e iogurtes, contribuem para a saúde do intestino e prevenção ao câncer de cólon e o ácido linoleico – substância da qual falaremos neste artigo.1

O que é o ácido linoleico e o ácido linoleico conjugado (CLA)?

O ácido linoleico faz parte da categoria dos ácidos graxos ômega-6, presentes principalmente nos óleos de soja, milho e canola. Já o ácido linoleico conjugado (CLA) é uma molécula isômera ao ácido linoleico, o que significa que ambas as moléculas possuem a mesma forma, porém com propriedades químicas diferentes. O ácido linoleico conjugado (CLA) é encontrado naturalmente em produtos de origem animal, principalmente carnes e laticínios, já que ele é produzido pelas bactérias do intestino de animais ruminantes, como a vaca e a ovelha. Essa gordura também é encontrada no óleo de cártamo, mas em pequenas concentrações.2

Quais são os efeitos do consumo ou suplementação com ácido linoleico conjugado (CLA)?

Os primeiros estudos que investigaram os possíveis efeitos benéfico do CLA apontaram para a prevenção de alguns tipos de câncer, como o de mama, o de próstata e o de cólon (intestino). A substância seria capaz de inibir a proliferação das células cancerígenas no organismo, principalmente se o diagnóstico e o tratamento forem recentes.3,4

Estudos também apontam um efeito benéfico do CLA no aumento da imunidade. O mecanismo relacionado a esse processo é que o CLA seria utilizado pelas bactérias benéficas presentes na microbiota do intestino e que atuam promovendo o fortalecimento do sistema imunológico.4

O consumo de CLA também pode estar relacionado ao aumento da massa muscular, principalmente para praticantes de atividades físicas intensas.5

 O CLA também parece exercer efeitos de diminuição na concentração de colesterol total e LDL (o chamado “colesterol ruim”); por outro lado, algumas pesquisas apontaram para uma elevação na chamada proteína C-reativa, um marcador inflamatório, associado com o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Dessa forma, o seu consumo deve ser analisado caso a pessoa possua fatores de risco para doenças cardíacas.3,4

O ácido linoleico conjugado (CLA) emagrece mesmo?

Estudos relacionaram positivamente o consumo de CLA com a modificação da composição corporal. Além de elevar o gasto metabólico, o ácido linoleico conjugado participa da mobilização das gorduras (oxidação) para a produção de energia, o que levaria à perda de peso, além do aumento de massa magra. Associado à uma alimentação saudável e equilibrada e à prática de atividades físicas, o consumo ou suplementação com CLA seria benéfica para indivíduos com sobrepeso ou obesidade, levando ao emagrecimento.

Algumas pesquisas também mostraram que, além do emagrecimento e do ganho de massa muscular, os indivíduos que utilizaram suplementos de CLA também apresentaram redução na recuperação de gordura ao longo do tempo – consequentemente, do aumento de peso – assim como observaram um aumento no gasto calórico, mesmo quando em repouso.2

O consumo de ácido linoleico conjugado (CLA) possui algum risco à saúde?

Antes de se optar pela suplementação com ácido linoleico conjugado (CLA) alguns fatores importantes devem ser observados.

Alguns estudos mostraram que o CLA pode apresentar um perfil pró-inflamatório, principalmente devido ao efeito de elevação da proteína C-reativa, assim como a redução do chamado “colesterol bom”, o HDL. Dessa forma, o consumo de CLA poderia levar a um risco aumentado do desenvolvimento de doenças cardiovasculares, especialmente as causadas pelo depósito de gordura nos vasos sanguíneos e principalmente em pacientes que já apresentam comorbidades, como hipertensão arterial.6

Outras pesquisas também apontaram para o risco de desenvolvimento de esteatose hepática (acúmulo de gordura no fígado) e do desenvolvimento de diabetes do tipo 2, já que o ácido linoleico conjugado (CLA) poderia interferir na captação da glicose circulante no sangue.6

Portanto, suplementação com CLA deve ser sempre orientada pelo seu médico ou nutricionista, principalmente se você apresentar algum fator de risco à saúde como obesidade, hipertensão arterial, diabetes ou outras doenças. Ele também não é indicado para gestantes ou mulheres que estiverem amamentando.

1 Biblioteca Virtual em Saúde – Ministério da Saúde. Alimentos Funcionais, 2009. https://bvsms.saude.gov.br/dicas-em-saude/420-alimento-funcionais

2 MOURÃO, D.M., et al. Ácido linoleico conjugado e perda de peso. Rev. Nutr. vol.18 no.3 Campinas, maio/junho, 2005.

3 SANTOS-ZAGO, L.F. BOTELHO, A.P.; OLIVEIRA, A.C. Os efeitos do ácido linoleico conjugado no metabolismo animal: avanço das pesquisas e perspectivas para o futuro. Rev. Nutr. vol.21 no.2 Campinas, março/abril, 2008.

4 HARTIGH, L.J. Conjugated Linoleic Acid Effects on Cancer, Obesity, and Atherosclerosis: A Review of Pre-Clinical and Human Trials with Current Perspectives. Nutrients 2019, 11, 370; doi:10.3390/nu11020370.

5 CORNISH, S.M. et al. Conjugated Linoleic Acid Combined with Creatine Monohydrate and Whey Protein Supplementation During Strength Training. International journal of sport nutrition and exercise metabolism 19(1):79-96. February 2009.

6 NEELAKANTAN, N.; SEAH, J.Y.H.; DAM, R.M. The Effect of Coconut Oil Consumption on Cardiovascular Risk Factors. A Systematic Review and Meta-Analysis of Clinical Trials. Circulation, Vol. 141, No. 10, jan. 2020.